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E agora José?

monique daniel bbb 12 e agora josé blog não pense

A notícia mais quente do momento rola solta, Monique, participante do Big Brother Brasil foi abusada sexualmente pelo participante Daniel enquanto ela dormia, após uma longa noite de bebedeira. O vídeo foi postado na internet e, com isso, muita gente teve acesso à cena em que é possível visualizar movimentos por debaixo do edredon, no entanto, Monique não se move em nenhum momento, sugerindo que ela estava realmente adormecida, enquanto Daniel “brincava” com ela.

Eu não assisto o BBB (e não me acho melhor por isso, eu só realmente não me interesso), mas essa notícia me chamou a atenção, principalmente pelos comentários que li no facebook, postados por pessoas do meu convívio social. Basicamente são comentários extremamente moralistas, machistas e algumas humorísticas.

Quero comentar algumas das quais me deixaram de queixo caído: “Acho que ela também deveria ser expulsa por ter bebido demais, ninguém mandou provocar”. Bom, vamos lá, eu concordo que é importante cuidarmos de nós mesmos, afinal, beber exageradamente pode levar a diversas tragédias como um acidente de carro, por exemplo, e usar uma roupa provocante pode vir a ser um fator de risco. Mas se uma mulher (ou um homem, por que não?) se encontra bêbada e/ou com uma mini-saia, isso dá o direito à outra pessoa de abusá-la sexualmente? Então, se um dia você ir a uma festa e acabar exagerando na bebida, um cara qualquer, um conhecido ou um amigo seu tem todo o direito de “brincar” sexualmente com você?

E por que ela deveria ser expulsa também? Que regra ela infringiu? Ela bebeu? E a rede globo colocou bebidas lá na festa para quê?… “Ah, mas ela bebeu demais”, se for por essa lógica, outros também beberam demais, então eles deveriam ser expulsos? E qualquer um poderia abusar dos participantes que beberam demais? ..E quem espera ser abusada sexualmente em rede nacional, com uma equipe da rede globo monitorando a casa 24 horas por dia?

Outro comentário: “Quando um cara bêbado fica com uma menina estranha não é estupro”. Confesso que de início não entendi, o que seria uma menina estranha? Prefiro imaginar que o autor dessa frase tenha colocado a polêmica para a questão do masculino, ou seja, quando é a mulher que abusa sexualmente um homem isso não é considerado estupro. Pois eu digo, se ele não estava consciente e se ele não consentiu, é estupro, é abuso sexual sim, por que não? Só por que ele é homem?

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Nossa sociedade machista não aceitaria bem essa situação, um cara que fosse abusado sexualmente enquanto estivesse inconsciente e reclamasse depois provavelmente seria taxado por muitos: “gay”, “bixa”. Mas a verdade é que sendo gay ou 100% hétero, um homem tem todo o direito de se recusar a ter relações sexuais.

Passemos agora para os comentários humorísticos, esses foram os que ao invés de me fazerem rir, por pouco não me fizeram chorar. Veja bem, eu não estou criticando aqueles que levam a vida de uma maneira leve e conseguem ver graça na vida mesmo diante de tantas tragédias e sofrimentos, pelo contrário, eu admiro muito os que conseguem passar mensagens sérias através do humor, da ironia, da brincadeira. No entanto, o que eu percebi foi que, nesse caso, muitas pessoas utilizaram o humor para não pensar e não discutir a respeito da problemática do estupro.

Entre várias piadinhas, comento especialmente uma: é uma imagem compartilhada por muitas pessoas do facebook em que há um homem de terno com uma câmera na mão dizendo: “Vamos parar de falar de estupro, agora vamos falar da tekpix”. Os que conhecem a propaganda da tekpix sabem o quanto aquilo é um pé no saco, é entediante, repetitivo, é chato. A mensagem que essa imagem trás é de que falar do que aconteceu recentemente no BBB, falar do estupro é repetitivo e chato, inclusive é mais repetitivo e chato do que o comercial da tekpix. E aí eu me pergunto, onde vamos parar com isso? Porque se não paramos para discutir seriamente sobre o assunto, como é que essa questão pode ser tratada?

Esses movimentos que eu citei, ao meu ver, de culpabilizar a mulher ou criar piadas sobre a situação, não só minimiza a responsabilidade de Daniel pelo ato e dá menos ênfase à sua ação, como também faz com que nós próprios não nos responsabilizemos pelo ocorrido. Isso mesmo, porque podemos até não ter estuprado ninguém, mas cabe a nós, cidadãos, pensar, refletir e agir em torno desse problema. Eu concordo que a TV Globo está errada, que deveriam ter impedido o Daniel naquele momento, que deveriam ter tomado providências logo de início. Contudo, milhões de brasileiros presenciaram a cena… e muitos criticaram a moça, muitos falaram mal do rapaz, muitos apedrejaram a rede Globo e poucos cogitaram: “será que isso não reflete o quem acontecido em nosso País?”. E acredito que poucos pensaram: “E o que eu posso fazer com relação à isso?”.

Acredite, criticar a rede globo ou apenas fazer piadas sobre o assunto não vai mudar muita coisa, mas é..pode fazer com que você durma tranqüilo e com a consciência limpa, afinal, você não tem absolutamente nada haver com relação a isso, não é?

Milca Freitas

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Artigo sobre o BBB

Luís Fernando Veríssimo BBB big brother brasil crítica

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço. […] Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.

[…] Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.

Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis?
Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores) , carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados.

Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo santo dia.
Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns).
Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.

O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a “entender o comportamento humano”. Ah, tenha dó!!!

Veja o que está por de tra$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores). Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.

Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa…, ir ao cinema…, estudar… , ouvir boa música…, cuidar das flores e jardins… , telefonar para um amigo… , visitar os avós… , pescar…, brincar com as crianças… , namorar… ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construído nossa sociedade.

Luís Fernando Veríssimo